«É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. [ ] Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios na língua principalmente , na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer.» Há livros que desviam para sempre o curso de uma literatura inteira. Não o fazem sozinhos - ora ecoam as vanguardas da sua época, ora rasgam preceitos vigentes; em casos mais raros, antecipam um certo futuro. É assim com Perto do coração selvagem, romance de estreia de Clarice Lispector. Publicado no ano em que a escritora completou 23 anos, conta a história de Joana: desde a infância marcada pela morte do pai e pela solidão do colégio interno, até à idade adulta, com um casamento longe do sonhado, a maternidade, a paixão por um homem enigmático e, por fim, uma inevitável dispersão do eu, da identidade, do rumo da vida. Joana é uma mulher supremamente livre, não confinável aos limites do seu tempo, indisponível para conter a sua voz, o seu pensamento ou o seu desejo vital, determinada a não dar